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Afetada pela pandemia, mortalidade materna cresce mais de 100% em 2021 no RS, indica boletim da Secretaria da Saúde

Por Litoral News RS em 23/06/2022 às 12:20:15

Em 2020, foram registradas 54 mortes de mulheres durante a gestação ou até 42 dias após o parto. Já no ano passado, dados preliminares apontam 114 óbitos; 62 são relacionado à Covid-19. Vacinação fez diferença na saúde das gestantes

Getty Images/BBC

A mortalidade materna cresceu 111% no Rio Grande do Sul em 2021, em relação 2020. Os dados, ainda preliminares em relação ao ano passado, estão no Boletim Epidemiológico de Mortalidade Materna, Infantil e Fetal lançado neste mês de junho pela Secretaria Estadual da Saúde (SES). A pandemia de Covid-19 é apontada como motivo para o crescimento expressivo.

"Em 2021, tivemos com maior impacto a Covid sobre as gestantes e as puérperas", afirma Karen Chisini, especialista em saúde do Departamento de Atenção Primária e Políticas de Saúde da SES.

De 2015 a 2020, o estado vinha mantendo uma linearidade em relação aos óbitos maternos. Em 2020, foram registradas 54 mortes em 130 mil nascimentos. No ano passado, foram 114 óbitos de mães em 124 mil nascidos vivos.

"Desses 114 óbitos, até o momento, nós temos 62 óbitos relacionado à Covid-19, de mulheres durante a gestação ou até 42 dias após o parto", confirma.

Apesar de os números ainda serem parciais, apontam Razão da Mortalidade Materna (RMM) de 92,5, taxa considerada alta segundo parâmetros da Organização Mundial da Saúde. O indicador é usado para avaliar a qualidade da assistência às mulheres durante o pré-natal, parto e nascimento.

Em 2020, o RS apresentou RMM de 41,3 óbitos maternos por 100 mil nascimentos, considerada taxa média. No mesmo ano, o Brasil apresentou RMM de 74,7 óbitos maternos.

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Um dado destacado pela especialista foi em relação à vacinação: nenhuma das mulheres que tiveram a morte relacionada ao coronavírus tinha tomado dose da vacina. "Temos que considerar que a vacinação para gestantes se iniciou entre maio de junho de 2021", pondera.

Karen ressalta ainda que, das 62 mulheres, 52 foram a óbito no primeiro semestre do ano. Logo, o maior grupo faleceu antes de o estado ter a vacina disponível pra gestantes. Os outros 10 óbitos foram no segundo semestre do ano.

Os demais óbitos são por causas já conhecidas, como hemorragia pós-parto e pré-eclâmpsia, que é quando a mulher tem pressão alta durante a gestação ou quando entra em trabalho de parto. O desfecho, nesses casos, muitas vezes é desfavorável.

Em relação aos 54 óbitos registrados ao longo de 2020, o boletim mostra aumento no segundo semestre do ano, com 33 ocorrências, especialmente, em novembro, com 11 mortes. Relacionadas à Covid foram quatro: duas em agosto, uma em outubro e uma em novembro.

"Foi início da pandemia, ainda não havia muita definição sobre o registro, a questão das testagens, então, a gente acredita que o número de mortes por Covid em 2020 pode ser maior. Em 2021, isso já estava mais organizado aqui no Brasil, então a gente acabou tendo acesso maior a esses dados", explica Karen.

Os números do ano passado, entretanto, ainda podem sofrer alterações. Karen afirma que o processo quanto aos óbitos maternos é demorado.

"O banco de dados da mortalidade no Brasil fecha, geralmente, um ano e quatro meses após. O banco de 2021 será fechado no início de 2023", projeta.

Ela explica ainda que, a partir do momento em que se identifica que se trata de um óbito materno, começa-se a investigação para entender se houve falha no atendimento prestado à paciente.

"Algumas vezes esses óbitos entram no sistema como de mulheres em idade fértil, que aqui no Brasil a gente considera de 10 a 49 anos, mas, durante a investigação, se vê que essa mulher estava grávida quando foi a óbito, ou ela chegou a ter o parto e o feto faleceu, ou teve um parto e essa criança está viva, e a gente traz esse óbito para dentro do indicador de razão de mortalidade materna", conceitua.

Políticas públicas

Karen destaca que o aumento registrado nas mortes maternas sempre leva a reflexão: onde houve falha, o que aconteceu durante o pré-natal ou durante o atendimento do parto ou pós-parto? "A gente precisa fortalecer o pré-natal, a questão da pandemia também foi uma grande preocupação pra que essas mulheres continuassem fazendo o seu acompanhamento."

Ela cita ainda protocolos que estão sendo elaborados pela SES que contemplam outras causas.

"A gente vem trabalhando aqui no estado na construção de protocolos sobre hemorragia pós-parto, construído com profissionais de universidades, profissionais que trabalham em maternidades, para a gente ver se consegue padronizar esse cuidado, pra que se evite que esses números continuem subindo." A ideia, segundo a especialista, é lançar a nota ainda este ano.

Há ainda o trabalho em protocolos sobre risco da pré-eclâmpsia, da hipertensão gestacional. "Sempre tentamos discutir com os municípios, com a instituição onde a mulher foi a óbito. Não numa questão punitiva, mas educativa, de mudança de prática, mudança de conduta." Conforme Karen, o trabalho é feito em conjunto com a atenção básica pra fortalecer a questão do pré-natal.

A importância de reduzir as taxas de cesariana no RS também é levantada. "Em 2021 tivemos uma taxa de 63% de partos cesáreos aqui no estado. É importante lembrar que é um procedimento cirúrgico, que tem seus riscos e a gente tem identificado que muitos óbitos maternos foram de mulheres que passaram por cesarianas." Embora seja uma opção, quando há indicação clínica, ela ressalta que não pode ser a primeira opção.

"Que essa mulher possa ter autonomia de discutir com a sua equipe e que ela tenha consciência, seja informada de todos os riscos e benefícios tanto do parto normal quanto da cesárea."

Riscos e cuidados

A chefe do Centro Obstétrico do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Maria Lucia Oppermann, foi responsável pelo atendimento de muitas gestantes no período mais crítico da pandemia. Ela lembra do momento como "assustador". No HCPA, foram duas mortes maternas.

"Nunca visitei tanto uma UTI na minha vida como no ano de 2021."

A médica, que também chefia o Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), conta que foi "um período muito difícil pra todo mundo"

Ela integrou grupo que auxiliou nas recomendações para enfrentamento da pandemia em mulheres grávidas. Professores e obstetras de todo o país se reuniram semanalmente para tentar melhorar o prognóstico. Os profissionais criaram o Manual do Ministério da Saúde de Recomendações à Gestante e Puérpera Frente à Pandemia de Covid-19. O documento está na segunda edição.

Até a chegada da vacina, ela relata que, no mundo inteiro, as pacientes morriam com muita facilidade. A vacinação ampla resulta no cenário atual, em que há aumento de pessoas infectadas, mas não de gravidade e com gestantes assintomáticas. "Elas não sentem nada, mas são testadas porque entram no hospital e, quando entram no Centro Obstétrico pra ganhar o bebê, são rastreadas e aí dá positivo."

Um dos pontos que fez diferença no período mais crítico, foi o medo das pessoas em acessar serviços de saúde. "Estava todo mundo tão fixado na Covid, com tanto medo, no início, de comparecer a um hospital que, não só gestante, mas pacientes em geral pioraram muito a sua condição de saúde por medo de contrair a doença num momento em que não havia nem tratamento nem vacina."

Maria Lúcia acredita que, possivelmente, a falta de um pré-natal de alto risco tenha sido, também, um dos fatores que levou ao aumento da mortalidade. Outro problema também citado foi a estrutura de saúde no interior do país, com poucas vagas de UTI e muitas delas distantes das pequenas cidades, levando pacientes a terem que viajar para conseguir um leito.

O impacto da falta de prevenção reverberou também em outras causas. De acordo com a médica, foi possível observar relação da pré-eclâmpsia grave e precoce com a Covid. "As mulheres com Covid tinham mais frequentemente pré-eclâmpsia severa."

"Classicamente, as mortes maternas no Brasil são por três motivos: hemorragia, hipertensão, e infecção, que é a sepse. A pré-eclâmpsia a gente não consegue ainda evitar totalmente, mas a gente consegue prevenir um número razoável com o uso de medicação preventiva, desde que iniciada precocemente."

Sobre a hemorragia, a médica explica ser um fator que está associado tanto ao cuidado na hora do parto, quanto ao número cada vez maior de cesarianas. "A repetição de cesarianas deixa o útero muito frágil", alerta. Ela destaca que alto índice é difícil ser justificado por uma condição de saúde. No HCPA, a taxa geral de cesáreas de 40%, abaixo do estadual (63%).

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